A oficina Capturando Narrativas, teve como objetivo apresentar equipamentos de gravação (gravadores e mp3s) de áudio para os participantes e mostrar-lhes como ocorre o arquivamento de dados de áudios para a linguagens digitais em computador. Oportunizando a eles acesso a novas mídias de áudio, para a capturação e composição de narrativas produzidas e capturadas na ilha de Colares, buscando valorizar a identidade cultural da região.
A metodologia desta oficina foi desenvolvida em forma de aulas, sendo 10 encontros com cada turma, no inicio com aulas expositivas e práticas dentro da sala de aula e laboratório de informática, alternando com saídas pela cidade e zona rural para práticas de capturação.
Na primeira semana de aula, ficamos nas dependências da escola, exercitando a pratica de entrevistas, conhecemos os equipamentos de gravação e o computador, como eles funcionam, suas funções e importância. Os estudantes produziram textos relatando um acontecimento da vida dele, que em seguida foram lidos, utilizando os equipamentos para capturação das histórias a partir das suas próprias falas. Para isso, fizemos uma dinâmica com os alunos para gravação, onde um entrevistou o outro e depois fizemos uma mapeamento de possíveis entrevistados da comunidade, escolhendo juntos quem entrevistaríamos, de quem recolheríamos histórias e narrativas populares. Entre eles escolhemos Seu Paulo, presidente da Associação cultural Beira-Mar, que representa o grupo de carimbó da localidade Jenipauba da Laura, zona rural do município de Colares, do qual estamos nos aproximando desde o início do projeto.
No final da primeira semana, planejamos uma visita no domingo junto aos alunos. Propomos uma Bicicletada que teve a duração de 40minutos de pedalada por entre as vicinais em meio a vegetação com um grupo de 15 pessoas. Chegamos ao barracão da associação e fomos muito bem recebidos, Seu Paulo nos ofereceu um lanche, e logo em seguida começamos uma entrevista coletiva, que teve como meta, registrar uma história relatada por ele em um trabalho de escola apresentado por um aluno da comunidade em 2009. Sentamos todos ao redor de Seu Paulo, e conversamos sobre a associação, seus componentes, seus representantes e suas composições, Seu Paulo chamou o Mestre Sabá um dos compositores do grupo, que logo em seguida aproveitando os tambores que já estavam arrumados, nos agraciaram tocando alguns de suas composições de carimbó.
Logo após a breve cantoria, Seu Paulo iniciou sua fala sobre a vez que viu uma visagem em uma antiga serraria da região a beira do rio, foi a história do “Preto Grande”
“peguei um lamparina e fui embora pra serraria, foi ai que quando passei a Igreja de São Miguel, depois de uma mangueira e uma escola, foi quando eu confrontei com a escola, eu vi um preto, lá no tronco de um esteio né, o preto chega espelhava né...fiquei paralisado, não pude correr, não pude falar. Ai eu falei “o meu pai do céu”...rezei, rezei, rezei, roguei por São Miguel, ai que foi soltando...”
Conseguimos uma narrativa que tanto almejávamos, e ainda exercitamos a dinâmica de entrevistas experienciada na primeira semana de oficina.
A troca de vivencias se deu por toda a manhã, principalmente quando os integrantes do grupo, convidaram os alunos para experimentar os instrumentos, como os tambores, maracás e banjo.
Ao finalizar a rodada de conversas, aproveitamos para tomar banho de igarapé em um sítio que fica na estrada de acesso a localidade. O sítio pertence à professora de geografia da rede estadual de ensino, Prof. Mara, uma colaboradora do projeto. Sendo este, mais um momento de descontração e conversa solta em comemoração ao bom desempenho dos alunos durante a entrevista, aproveitando acima de tudo a tão esplendida natureza que nos cerca.
A segunda semana iniciou com aulas no laboratório de informática da Escola Estadual de 1º e 2º grau Norma Guilhon localizado na sede do município de Colares, onde ensinamos aos estudantes utilizar outros recursos tecnológicos, como guardar arquivos em computador , criar pastas, assim como repassar informações sobre tipos de arquivos utilizados no sistema mundial de comunicação, buscando sempre enfatizar o valor de uma informação dentro da sociedade no qual vivemos.
Nas aulas seguintes, buscamos centralizar nossas ações como entrevistas e registros fotográficos no centro da cidade de Colares, onde os alunos enfrentando a vergonha, abordavam transeuntes para entrevistas, na maioria foram escolhidos idosos e pescadores, pois nosso objetivo estava em capturar histórias e narrativas populares que envolvessem o cotidiano desta pacata cidade do interior. Em nossas andanças, conseguimos poucos registros, fato este que ficou mas claro quando um dos moradores falou que não se pode contar histórias de dia, pois “Quem conta história de dia, cria rabo.” No decorrer da semana selecionamos os registros e finalizamos a oficina no laboratório de informática, postando registros fotográficos e de áudio, em sites de relacionamentos usados pelos estudantes, como os blogs e orkut .
Penso que esta oficina obteve êxito em seu objetivo. Conseguimos reforçar o trabalho proposto pelo projeto, que é o de valorizar a cultura popular através de narrativas populares, e ainda incentivar os alunos a utilizar as ferramentas digitais e analógicas, através dos equipamentos de gravação, para um melhor agenciamento dessas informações, transformando-as em bytes e distribuindo em rede para que um maior número de pessoas tenham acesso a elas. Pois coletar, produzir e transmitir informação é tarefa fundamental para afirmação de uma identidade local e inclusão digital da juventude da ilha de Colares.
Bruna Suelen





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